Tricolor Baiano volta a vencer na primeira divisão

Por Jefferson Almeida

Abelão estava com a vida mansa, com o camelo na sombra trabalhando no mundo árabe, um lugar onde a sua palavra era lei em termos de futebol, sem muita pressão e ganhando muito bem, obrigado. Ao fim do contrato, a garantia de voltar ao país para dirigir nada menos do que o atual campeão brasileiro, um clube que se deu ao luxo de ficar sem técnico somente por alguns meses, esperando o seu retorno. Nunca um treinador chegou com tanta moral e promessa de realizar um trabalho a longo prazo. “Desilusão, meu bem. Quando acordou”, Abel estava em um pesadelo em pleno Engenhão, amargando no comando do seu Fluminense sua segunda derrota consecutiva no Brasileirão.  O detalhe é que o Fred deste pesadelo não mete medo em ninguém.

Pois é, no Brasil o buraco é mais embaixo. O Flu, que imaginava alçar voos bem altos nesta temporada, depois do brilhante título nacional está longe de ser aquela equipe aguerrida, de guerreiros como diz a torcida. E a perda da Libertadores não pode servir de desculpa para as últimas atuações do time. Abelão chegou tentando ajeitar algumas coisas. Promover a volta de Diego Cavalieri foi uma mexida muito bem vinda. Ele livrou o Tricolor Carioca de um vexame maior no sábado. Mas indicar a contratação de Marcio Rosário foi de lascar. Ele e Gum fizeram a alegria do atacante Jobson, ex-Botafogo na vitória do time baiano.

Falando do jogo de sábado, foram dois tempos distintos. Na primeira etapa, tivemos uma pelada sem emoção, com duas chances para o Bahia e uma para o Fluminense. Em todas, os goleiros praticaram boas defesas. No segundo período o peladão foi mais emocionante, com chances de gol para tudo que é lado, mais pela desorganização do Flu do que por qualquer outra coisa.

Abel relutava em escalar Rafael Moura junto com Fred no ataque. Mas acabou pela segunda vez seguida se vendo obrigado a efetuar esta alteração, já que o estreante Ciro não correspondeu às expectativas. O artilheiro Fred  também não está nos seus melhores dias e as vaias recebidas atestam que há torcedores que estão dando graças a Deus por ele desfalcar o time durante a Copa América. Conca é outro que está longe daquele jogador que foi o craque do Brasileiro de 2010 e também acabou substituído.

As alterações de Abelão deram um certo resultado. Com dois atacantes enfiados na área, a defesa baiana recuou e  abriu espaço para chutes de longa distância de Marquinhos e de Souza. Este último carimbando a trave. Mas o Bahia era melhor nos contra-golpes, muito puxados por Carlos Alberto, ex-Vasco, que fazia sua estreia.  Jobson também acertou o poste. Junior, Jancarlos e Fahel obrigaram Cavalieri a efetuar ótimas defesas. Nos descontos Fred e Rafael Moura quase marcaram de cabeça. Mas, aos 47 minutos a justiça foi feita. Ávine puxou contra-ataque desde o campo de defesa e rolou para Jobson chutar no ângulo e garantir após oito anos a primeira vitória do Tricolor de Aço na primeira divisão do futebol brasileiro. E logo em cima do atual campeão. Não deixou de ser um resultado histórico para o Abelão.

Ficha do Jogo:
Sábado, 18 de junho de 2011
Campeonato Brasileiro – Fluminense 0×1 Bahia

Estádio:
Engenhão
Público:
9.532
Árbitro:
Alicio Pena Júnior
Gol –
Jobson aos 47’ no 2º tempo
Fluminense –
Diego Cavalieri; Mariano, Gum, Márcio Rosário e Carlinhos (Marquinhos); Edinho, Valência, Souza e Dario Conca (Matheus Carvalho); Ciro (Rafael Moura) e Fred. Técnico: Abel Braga.   
Bahia –
Marcelo Lomba; Jancarlos (Marcos), Paulo Miranda, Titi e Ávine; Fahel, Marcone, Diones e Carlos Alberto (Lulinha); Jobson e Souza (Júnior). Técnico: René Simões.

Trem Bala chega em sua primeira estação rumo ao topo do mundo

Por Alexandre Mesquita

Jamais os corações cruzmaltinos haviam sido tão bagunçados. A decisão de ontem não foi jogo para fracos. Nem no campo, nem na torcida. Foram 90 e poucos minutos e mais o intervalo de uma tensão absurdamente grande, praticamente insuportável. No fim, um grito intenso de alegria, de êxtase, de glória pelo ressurgimento do Gigante no cenário nacional. Vasco campeão da Copa do Brasil de 2011, curiosamente, um torneio idealizado por um dirigente que se confunde com o clube, Eurico Miranda, quando este ocupava a função de diretor de futebol na CBF. E isso faz mais de duas décadas. O Brasil nem tetra era. Desde então, foram alguns vexames incríveis e algumas bolas na trave, inclusive com uma derrota diante dos rivais urubus na final de 2006, quando o próprio Eurico presidia o clube de São Januário. Mas, agora, não só recordações ruins serão contadas acerca desta competição que, mesmo enfraquecida pela ausência dos clubes que disputam a Libertadores na mesma temporada, costuma apresentar fortes emoções em todos os anos.

Foi uma luta cheia de alternâncias, difíceis de se ter em uma finalíssima. Por ter ganho em casa pelo placar mínimo, o Vasco sabia que um gol seu no campo inimigo iria lhe dar uma vantagem ainda maior. Mas foi o Coxa que começou marcando forte a saída de bola vascaína – com a ausência do artilheiro Anderson Aquino, suspenso, seu técnico reforçou o meio com mais um homem de marcação –, o que deixou a equipe carioca encurralada por cerca de dez minutos. Mas no primeiro contragolpe bem feito, Diego Souza lança Eder Luis que vai no fundo pela direita e passa para Alecsandro – o filho do ídolo coxa Lela – abrir a contagem. Vascaínos do mundo inteiro se abraçaram. Era o começo que todos gostariam que acontecesse. E da fato estava ocorrendo. O time paranaense e sua animada torcida sentiram o baque. Por quinze minutos, o Almirante bailou no gramado ao som de seus torcedores, empurrou o dono da casa em seu lado e impediu sua reação. Mas no primeiro bom ataque alviverde depois do gol, uma bola na área, um vacilo de Prass, uma bobeada de todo o setor defensivo e pronto: era o empate que se instaurava, gol de Bill, que tem nome, porte (e futebol) de búfalo.

Com o despertar da torcida local, a batalha tomava outro rumo. O Gigante se transtornou e só se via uma equipe jogando. No minuto final da primeira etapa, acontece o que nenhum vascaíno gostaria de ter visto: a virada do Coxa se concretizava, após mais um lançamento em diagonal na área que sobrou para Rafinha bater. Prass espalmou o chute que foi aos pés de Davi. Dessa vez não teve perdão. Foi rede! Desespero pelo lado cruzmaltino? Não. Insegurança? Total. Apenas uma certeza o torcedor do Vasco tinha: perder aquela decisão depois de sair na frente seria doído demais!

E veio o tempo final. Ricardo Gomes, com seu ortodoxismo radical, não mexeu no time. Diego Souza estava apagado demais. Felipe e Eduardo Costa, perigosamente, pendurados com amarelo. Apenas Eder Luis cumpria uma jornada bastante correta. E não havia um Pelé no banco. O negócio era torcer pra tudo dar certo. Muito mesmo. O panorama não mudou. Era o Coxa apertando e o Gigante se defendendo. Agora um pouco melhor. Sem as falhas apresentadas antes. Parecia um conjunto mais coeso (e calmo). E quis o destino que uma mexida de leve na tática vascaína fosse dar resultado. Com Eder Luis deslocado pela esquerda do ataque – provavelmente para segurar Jonas –, mas ainda muito solitário, sai de seus pés o tento de empate. Depois de receber em velocidade, ele arrisca um chute de longa distância. Ah, franguinho amigo, que bom que veio nos ajudar no Couto Pereira nesta noite! A bola não era complicada, mas Edson Bastos se enroscou em suas próprias limitações. Mais uma vez o torcedor cruzmaltino se debulhava em lágrimas de felicidade. O que poderia mais vir? Mais sofrimento? Mas este filme ainda teria muito enredo pela frente…

Não se completaram dez minutos de (quase) alívio e em nova bobeada da zaga, que chegou a ter domínio sob a pelota e a perdeu nas proximidades da área, um tiro indefensável de longa distância de Willian, atleta que deve ter média de um gol por ano, deixa novamente o Coritiba em vantagem. Daí em diante, o que se viu foi um duelo incessante de ataque contra defesa. Ataque Coxa e defesa do Gigante, que não contra-atacava, nem prendia bem a bola. Sorte nossa que o time alviverde tinha pouco talento e nenhuma criatividade. Foram milhares de bolas aéreas frontais até o fim do jogo. Dedé, Anderson Martins, Romulo, Eduardo Costa e Allan devem ter ficado com dor de cabeça. Muita pressão, mas pouco perigo. Coração na boca. Champagne, cerveja e vinho na mesa, esperando apenas o trilar de apito tão aguardado. Foram oito anos de espera. Ansiosa espera que agora, definitivamente, se desfez no tempo e no espaço.

Quem sabe o Trem Bala da Colina se inspire no passado, quando após o jejum de 1937 a 1943 nascia o memorável Expresso da Vitória, e faça o Club de Regatas Vasco da Gama mais uma vez trilhar caminhos fabulosos rumo ao topo do mundo.

Ficha do Jogo:
CORITIBA 3 x 2 VASCO
Local: Couto Pereira, em Curitiba (PR)
Hora: 21:50
Arbitro: Sálvio Spínola (Fifa/SP)
Auxiliares: Alessandro Rocha de Matos (BA) e Emerson Augusto de Carvalho (SP)
Cartões amarelos: Léo Gago, Bill, Leonardo (CTB); Eder Luis, Eduardo Costa, Felipe, Jumar e Fernando Prass (VAS)
GOLS: Alecsandro, 11′/1°T (Vas 1×0); Bill, 29′/1ºT (1×1); Davi, 44′/1ºT (Coritiba 2×1); Eder Luis, 12′/2ºT (2×2); Willian, 21′/2ºT (Coritiba 3×2)
CORITIBA: Edson Bastos, Jonas, Demerson, Emerson e Lucas Mendes (Eltinho, 14′/2ºT); Willian, Léo Gago (Marcos Aurélio, 15′/2ºT), Marcos Paulo (Leonardo, 28′/1ºT), Rafinha e Davi; Bill. Técnico: Marcelo Oliveira.
VASCO: Fernando Prass; Allan, Dedé, Anderson Martins e Ramon; Romulo, Eduardo Costa, Felipe (Jumar, 33′/2T) e Diego Souza (Bernardo, 33′/2ºT); Eder Luis e Alecsandro. Técnico: Ricardo Gomes.